Variedades Femininas

Aqui se fala do universo feminino

MONJA COEN: UMA PROFISSÃO DE FÉ E CORAGEM

em 15 de março de 2010

Dia 08 de março comemoramos o Dia Internacional da Mulher, nesse mês tão especial preparamos reportagens exclusivas com mulheres que se destacam em nosso país, na semana passada tivemos uma entrevista com Ivete Sangalo, essa semana procuramos uma mulher que representasse bem o espírito desse dia.

A escolhida foi a Monja Coen, mulher que tem revolucionado uma filosofia/religião atingindo um patamar tipicamente masculino. Com muita sabedora, a monja desenvolve um extraordinário trabalho social, luta pela pacificação, nos ensina com lidar com a vida de forma mais plácida e quem sabe até bem mais inteligente; Realiza uma quantidade considerável de palestras no Brasil e no mundo levando ensinamentos para todas as pessoas.

Sua história de vida é de superação, nasceu em família tradicional paulista, foi jornalista, trabalhou fora do país, com toda essa vida organizada, surpreendeu todas as expectativas e tornou-se Monja Zen Budista, uma filosofia onde dificilmente eram ordenadas pessoas de origem não japonesa. Autora de vários livros é uma mulher respeitada, requisitada e muito admirada em nosso país e no mundo. Conhecida como a primeira Monja do Brasil, mesmo não sendo de fato, ela é sem dúvida a primeira monja verdadeiramente brasileira.

Gostaria de agradecer a senhora pela disposição em nos dar essa entrevista. Como a senhora se sente sendo a primeira monja (que temos conhecimento) do Brasil?

Não sou a primeira monja Budista do Brasil. Houve outras monjas antes de mim, inclusive algumas de origem japonesa, como Oka-san do templo Busshinji de São Paulo.  Talvez eu seja a primeira de origem não japonesa a ficar tanto tempo em treinamento no Japão (doze anos) e voltar ao Brasil com a graduação de Mestra Correta conferida pela nossa sede administrativa, em Tóquio.

Como se deu a sua descoberta pelo Budismo e daí o que ocorreu para que a senhora se tornasse monja?

Descobri o Budismo através de matérias que eu precisava escrever para o Jornal da Tarde, onde trabalhava na década de sessenta. Havia também os monges vietnamitas que se queimavam em praça pública, protestando contra a violência. Havia os Beatles,  o Pink Floyd, o Yes – grupos de rock’roll cujos músicos praticavam a meditação. Isso me interessou – meditar. Poder acessar a um estado de equilíbrio e tranquilidade mental, um estado de conhecimento, de sabedoria e de compaixão.  Assim, iniciei minhas práticas meditativas em Los Angeles, na California, onde morava na época. Havia lido um livro sobre Ondas Mentais Alpha, no qual a autora entrevistara um monge zen.  Á resposta desse monge foi a gota d’água que me levou a procurar o Zen Center of Los Angeles e me entregar ao Zen Budismo.

E a sua família, como reagiu com a sua escolha?

Minha mãe questionou muito – por que eu não me tornava uma religiosa cristã, seguindo a tradição de nossa família.  E eu precisava responder a ela.

Ao tentar convencer minha mãe – milagre- acabei me convencendo profundamente. Jesus e Buda não são inimigos nem rivais. São grandes mestres cujos ensinamentos, se seguidos corretamente, levam à bem aventurança.

Como a senhora vê a situação das mulheres de nosso país, qual a importância do dia da mulher que estamos comemorando esse mês.

Há inúmeros brasis neste Brasil.  Há mulheres que ainda se submetem a papéis de  inferioridade e abusos. Há mulheres no Brasil concorrendo à Presidência da República.  Temos aqui todas as possibilidades.  O importante é que saibamos de nossos direitos e deveres, como seres humanos.O importante é incluir homens e mulheres com equidade – tanto na vida pública como na vida familiar, amorosa.  A equidade não significa igualdade. Somos diferentes.  Cada ser é único. Tanto homens como mulheres estamos juntos e juntas construindo a realidade em que vivemos.  Comemoramos o Dia da Mulher para lembrarmo-nos de que temos direito à vida, ao amor, ao trabalho, à equidade, à ternura, à saúde pública, à justiça, à educação.  Porque até pouco tempo não tínhamos esses direitos.  Apenas os deveres de satisfazer a sexualidade masculina e cuidar da prole.  Então celebramos o Dia da Mulher, ainda como um suspiro de alívio – pois não faz muito tempo que nos permitiram votar, trabalhar e participar da vida pública do país. E talvez seja uma forma de lembrar às nossas irmãs que ainda não despertaram para seus direitos e deveres verdadeiros, que acordem.  Dever de mulher é dever de ser humano.

Em relação à participação feminina no Budismo, a senhora acha que as mulheres tem o espaço merecido?

Ainda estamos a construir a participação feminina no Budismo.  Nascido na Índia, sociedade patriarcal, cabia às monjas a posição de seguir e obedecer os monges. Hoje já houve mudanças, recentes. No Japão foi, depois da Segunda Guerra Mundial, que a Monja Kojima saiu de seu templo e reivindicou a  equidade entre monjas e monges. Conseguiu. Hoje as monjas da tradição Soto Zen Shu, a que pertenço, podem oficiar casamentos, ordenações laicas e monásticas, oficiar enterros, serviços memoriais – enfim, todas as mesmas funções e sacramentos que os monges. Nos Estados Unidos, Europa, Canadá, Austrália, há grandes monjas liderando grupos, mosteiros, centros de prática e estudos budistas.  Mas ainda há discriminação sim. Ainda temos que construir uma cultura de inclusão e respeito.

Qual mensagem a senhora mandaria para as mulheres de nossa cidade?

Não permita que a discriminação exista.  Não se omita.  Manifeste-se de forma não agressiva. Manifestações com ternura e sabedoria.  Esse o caminho.

Não se submeta a abusos de qualquer sorte – quer sexuais, quer morais.  Brincadeiras, piadas podem ser formas de exclusão e discriminação. Aponte isso às pessoas. Muitas nem percebem. Mulheres não devem discriminar contra mulheres. Precisamos nos reconhecer criadoras de vida, de culturas, de civilizações.

Juntas poderemos mudar o paradigma de uma cultura de violência no de uma cultura de paz, justiça e cura da Terra.  Faça sua parte.  Assuma seu papel de mulher, de ser humano, de pessoa, de cidadã.  Faça seu melhor e sorria.  Cada uma de nós que se transforma, se liberta, facilita e propicia a transformação e a libertação de infinitos seres.

Publicado no Jornal “O Contemporâneo” em 13/03/2010, entrevista cedida a Clara Guimarães.

Anúncios

Uma resposta para “MONJA COEN: UMA PROFISSÃO DE FÉ E CORAGEM

  1. Uirá disse:

    Muito Lindo isso e ela né.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: