Variedades Femininas

Aqui se fala do universo feminino

KIKA NICOLELA: UM NOVO RUMO PARA O AUDIOVISUAL BRASILEIRO

em 20 de março de 2010

Um mundo de imagens, sons e movimentos sincronizados: esses são alguns dos muitos recursos utilizados pela artista em suas obras. Kika Nicolela recria, ou cria um novo audiovisual por meio da fusão com elementos das artes plásticas e do universo tecnológico. Graduada em cinema pela USP e pós-graduada pela UCLA (Los Angeles), a artista é uma das brasileiras mais premiadas da atualidade no Brasil e no exterior, tendo recebido prêmios como o Face to face, mais prestigiado festival de videoarte da França.

Seus projetos vão de videoarte, longas metragens e fotografias até instalações, happenings e experimentos artísticos. Em suas andanças pelo mundo, Kika já expôs em galerias da Finlândia, Suécia, Estados Unidos, Turquia, Grã-Bretanha, Austrália; e essa lista não para de crescer. No momento ela reside na Áustria, onde realiza um projeto de longa metragem em uma residência artística.

Em relação ao nosso especial mês das mulheres, a artista, além de merecer ser homenageada por tudo que tem construído em sua carreira, também merece ser citada por ter dirigido um premiado documentário longa-metragem que retrata a vida da mulher brasileira: “Fala Mulher” trata da vida de 15 mulheres afro-brasileiras, que trabalham como manicures, secretárias, empregadas domésticas, professoras, cozinheiras, dentre outras profissões; e ainda dividem seu tempo trabalhando na escola de Samba Camisa Verde Branco. O documentário expõe suas vidas e dialoga com suas realidades, enquanto elas em conjunto constroem  o próximo desfile da escola de samba.

Kika Nicolela nos concedeu uma entrevista exclusiva, conheça um pouco mais dessa artista:

OC: Como você trabalha com audiovisual, poderia nos dar sua opinião sobre o momento que vive o audiovisual brasileiro?

Kika: É um assunto complexo. O próprio audiovisual é um termo que abrange muita coisa, sendo o cinema o seu representante mais conhecido. O cinema no Brasil passa por uma fase boa há alguns anos graças à leis de incentivo, e ao talento de alguns diretores, mas como sempre o gargalo está na distribuição mais do que na produção. Os filmes são realizados, mas ou não conseguem alcançar a distribuição comercial, ou então ficam muito pouco tempo em cartaz.

No entanto, não estou inserida nesta realidade, pois meu trabalho é mais específico, está no limiar entre cinema e arte contemporânea. Apesar do meu background ser cinema – ou seja, me formei em Cinema na USP em 2000 – minhas obras são em geral vídeos experimentais ou video-instalações. E infelizmente no Brasil ainda existe uma inabilidade para lidar com esse tipo de atividade, no que se refere a leis de incentivo ou editais públicos. Portanto, muito desse tipo de audiovisual é realizado de forma independente. E acredito que temos alguns artistas e grupos realizando trabalhos muito interessantes nesta área no nosso país.

OC: Seu trabalho é algo único, inovador, o que você poderia nos falar sobre ele?

Kika: Eu não diria que meu trabalho seja inovador… Acredito que o próprio cinema como o conhecemos está em crise, e no momento em que comecei a desenvolver um trabalho pessoal, não bastava para mim seguir as regras pré-estabelecidas da linguagem do cinema tradicional. Acabei caindo por acaso no mundo da arte contemporânea, que era um outro mundo para quem vinha de uma escola de cinema, e comecei a me encontrar. Atualmente, esses dois universos ainda estão separados, mas cada vez menos. Há 8 ou 10 anos atrás, essa divisão era mais evidente.

O meu trabalho consiste em essencialmente vídeos experimentais e vídeo-instalações. Falamos em instalações basicamente quando o próprio ambiente em que o vídeo está inserido faz parte da obra – ou seja, não se trata apenas de uma projeção em uma parede qualquer. E meus vídeos flertam com a linguagem documental, com a vídeo-dança, com a narrativa ficcional, com a performance, mas não se encaixa em nenhum desses gêneros exatamente.

O que mais me interessa é convidar colaboradores – sejam eles atores ou dançarinos profissionais, ou pessoas comuns ou ainda pertencentes a alguma comunidade específica – e propor uma situação que os obrigue e me obrigue também a sair da nossa zona de conforto. Em geral, eu planejo a situação, as regras do jogo, mas não tenho controle absoluto sobre ela. Dessa forma, o resultado é estimado até certo ponto, mas totalmente imprevisível. Esse é o tipo de projeto que me fascina, e que eu acredito que revela um pouco mais dos outros e de mim mesma; da natureza humana, enfim.

Obra: Flux

OC: Conte-nos um pouco sobre a sua escolha pelo cinema e pelas artes visuais?

Kika: Eu tinha 16 anos quando prestei vestibular, e a única coisa que eu sabia é que era uma cinéfila inveterada, era o que eu mais amava. Desde criança, era louca por cinema americano antigo (dos anos 30 a 60). Mas não tinha muita noção do que significava ser cineasta, ou como era a prática do fazer cinema.

Saindo da faculdade, trabalhei um pouco como assistente de direção em longas-metragens, o que foi uma experiência bastante intensa. Mas sabia que eu precisava desenvolver a minha própria voz artística, e em 2002 resolvi ir morar e estudar em Los Angeles por um tempo. Lá realizei 7 curtas em 6 meses, aprendi a me expor em situações de projeções públicas e ouvir críticas, e ao retornar ao Brasil, comecei a fazer os meus próprios vídeos. Aprender a editar no computador foi o que mais me ajudou a experimentar novas estruturas. Antes, na universidade, eu montava na moviola (película) ou edição online de vídeo (de fita para fita), e ambos me entediavam profundamente. Sou da geração que viveu intensamente essa transição do analógico para o digital, e acho que foi muito bom para mim.

Quanto às artes visuais, fui recebendo convites para realizar parcerias e exposições, e aos poucos fui me sentindo mais à vontade. Há alguns anos já, eu tanto exponho meus trabalhos em galerias, museus e instituições artísticas, quanto exibo meus vídeos em festivais ou outros eventos.
OC: Como tem sido a receptividade do seu trabalho no exterior?

Kika:Acredito que tem sido muito boa. Às vezes acho que é melhor do que no Brasil, não entendo muito bem o porquê. Quero dizer, participo de muitos festivais fora do país, recebo muitos convites de curadores internacionais e sou selecionada para residências artísticas extremamente competitivas. Tenho tido um ano particularmente bom em 2010.

OC: Para uma mulher, o significa trabalhar com cinema? Existe alguma dificuldade?

Kika:A maior parte dos realizadores é do sexo masculino, enquanto a produção fica nas mãos de uma maioria do sexo feminino. Não tenho percentagens ou números exatos para fornecer, mas esse cenário me parece óbvio, pelo menos no Brasil. O que isso quer dizer exatamente, não sei. Mas não sinto pessoalmente um preconceito por ser uma realizadora mulher. Acho que algumas funções no cinema são bem mais complicadas para uma mulher, como direção de fotografia. É uma equipe essencialmente masculina, e que envolve uma maquinária pesada, então respeito muito as pouquíssimas diretoras de fotografia que eu conheço.

Obra: Windmaker

OC: Você está na Áustria no momento, poderia nos falar sobre esse projeto?

Kika: Fui selecionada para uma residência artística em Graz, então estou vivendo aqui há dois meses e realizando um projeto inédito. É um projeto chamado “The Film That Is Not There”, em que uso um roteiro de longa-metragem que escrevi como base para desenvolver diversos trabalhos com colaboradores diferentes. Por exemplo, escolhi algumas cenas para desenvolver um storyboard (desenhos que visualizam a ação descrita nos roteiros) com um artista visual sírio e com uma ilustradora finlandesa; conversei sobre o filme com uma compositora sul-coreana, e ela desenvolveu uma trilha sonora de 7 minutos, que seria uma proposta dela para a música deste filme hipotético; uma escritora britânica que vive há 10 anos aqui em Graz, fez a tradução de algumas cenas para o alemão, e utilizei esses diálogos para realizar testes de elenco com atores locais. Também realizei diversas fotos na cidade, pesquisando possíveis locações que se encaixariam com o visual do filme. Enfim, o longa-metragem nunca será realizado, mas vou fazer uma exposição com todos esses elementos inspirados no roteiro. A idéia é que cada um desses elementos, sozinhos ou em conjunto, tenha o potencial de estimular a imaginação das pessoas, como se fossem peças de um quebra-cabeças impossível de ser completado. A história será construída por cada visitante da exposição, e não haverá uma mas inúmeras narrativas possíveis.


OC: Existe alguma fórmula para o seu sucesso? Pois no momento você é uma das mulheres que tem mais reconhecimento nessa área do Brasil, você recebeu mais de 30 premiações, participou de mais de 60 exposições individuais e coletivas. Como você se sente em relação a tudo isso que tem ocorrido na sua vida?

Kika: O conceito de sucesso é em si algo muito relativo e subjetivo. Procuro viver o momento e celebrar as vitórias. A vida é cheia de altos e baixos, e não gosto de viver à mercê dessa idéia de “sucesso”. E não existe fórmula. Uma das coisas que mais ouvi em Los Angeles dos cineastas “de sucesso” que conheci, é que ouvimos muito mais “não” do que “sim”, e o segredo é persistir. Enfim, o importante é o trabalho, e o que vier é conseqüência, tento pensar dessa forma.

Neste momento, sinto-me otimista, contente de estar tendo oportunidades de realizar novos trabalhos, ansiosa e preocupada também; raramente as condições são ideais, sempre pouco tempo, pouco dinheiro.

OC: Para aqueles leitores que desejam seguir a uma carreira como a sua, qual mensagem você deixaria?

Kika: Não existe uma trajetória igual a outra. Cada um acaba trilhando o seu próprio caminho, por isso acho difícil dar conselhos. De forma geral, eu diria que é importante ter uma paixão muito grande e uma determinação para trabalhar bastante, sem ter a segurança de uma carreira estável. Isso é importante, porque é fácil ser idealista quando jovem, mas os anos passam e vi muita gente desistir porque não agüenta as rejeições, ou a ausência de um salário fixo. Acho também aquela imagem romântica do artista atormentado não faz sentido hoje em dia; precisamos ser responsáveis, disciplinados, trabalhadores, equilibrados. Pelo menos eu acredito nisso.

*Para saber mais sobre Kika Nicolela acesse www.dilemastudio.com

*Reportagem Publicada Originalmente na coluna cultura do Jornal O Contemporâneo no dia 20 de março de 2010. Entrevista cedida a Clara Guimarães.

*Jornalista Responsável pela coluna: Clara Guimarães

Windmaker

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3 respostas para “KIKA NICOLELA: UM NOVO RUMO PARA O AUDIOVISUAL BRASILEIRO

  1. Uirá disse:

    grande artista ela.

  2. Reconhecemos um grande artista pela sua grande generosidade.

  3. kikanicolela disse:

    oi clara, obrigada, nao tinha lido ainda. ficou bacana

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