Variedades Femininas

Aqui se fala do universo feminino

Helen Wright, Beyoncé e as mulheres que não queremos ser

em 6 de outubro de 2010

Janaína Depiné*

Sabe aquela notícia que simplesmente você não tem como não clicar para ler? Pois o título “Diretora volta a trabalhar 7 horas depois de dar à luz”, da Revista Época, parecia piscar na minha tela. A reportagem contava a história de uma heróica diretora de escola na cidade de Calne, na Inglaterra, que entrou em trabalho de parto de manhã e, logo depois do almoço, estava de volta ao batente. Rebento no colo e cheia de orgulho em noticiar ao mundo que é perfeitamente possível conciliar a maternidade com uma carreira bem-sucedida.

Loucuras à parte – afinal, qualquer pediatra declarará que expor um bebê recém-nascido e sem defesas a um ambiente escolar não é nada salubre, a questão que me atormentou foi bem outra.

Desde que as mulheres vêm, pouco a pouco buscando seu pedacinho de espaço no voraz mercado de trabalho, provando que se nos primórdios fomos boas coletoras, podemos, sim, dar conta de outras funções além da casa, as pressões são cada vez piores.

Resumo da ópera: somos guiadas pelo padrão insano de super mulheres. Ou seja, não basta ser boa mãe, tem que ser competente no trabalho, estar malhada, turbinada, arrumada, disponível e ainda bater um bolo. Por isso, nessa edição dedicada às mulheres, nada melhor do que uma coluna de etiqueta para falar das imperfeições não só permitidas, mas desejadas por nós, mulheres.

NÃO QUEREMOS SER CLAUDIA LEITTE


Dar à luz e um mês depois mostrar uma barriga de tanquinho? Obrigada, mas dispensamos. Mulher que tem filho tem o direito de primeiro cuidar do rebento. Se sobrar um tempinho a gente dá um trato no visual. É a força da natureza. Os hormônios conspiram e nos inspiram a dedicar-nos aos pequeninos. Cai a libido, cresce o instinto materno. Um tempo depois tudo vai voltando ao lugar, cada mulher no seu ritmo. Sem pressão, nem cobranças.

NÃO QUEREMOS SER BEYONCÉ

Linda e talentosa, a cantora chamou a atenção do Brasil na sua rápida passagem por algumas capitais. Apesar de todo o furor que provoca e de ser considerada uma diva, não se pode negar que a cantora repete velhos estereótipos. A mulher que rebola seminua quer colocar um anel no dedo a qualquer preço. E se o homem bobear ela o trata como… Um típico machão: manda pegar uma caixa (à da esquerda, da esquerda), juntar os pertences e desaparecer de sua vida. Obrigada, mas também não queremos tratar os homens assim e nem nos vestir como uma Rita Cadilac dos tempos modernos.

NÃO QUEREMOS SER FRUTA

Melancia, maçã, melão…No hortigranjeiro do mercado feminino tem espécie para todos os gostos. Obrigada, mas não somos objetos de nenhum pomar. Preferimos ter o cheiro de fruta, do que a cara ou o biotipo de uma. Por isso, nós mulheres queremos abolir esses padrões de beleza comprados em clínicas. Com menos cicatrizes de plásticas e mais marquinhas da vida.

NÃO QUEREMOS SER A MADONNA

Claro que queremos manter a juventude pelo maior tempo possível, mas não fingir que o tempo não passa. Por isso, queremos ter o direito de envelhecer com orgulho. Queremos poder mostrar ao mundo nossas rugas e nosso valor, sem ter que para isso ter um “toy boy” como troféu de virilidade feminina. Queremos companheiros de verdade que ofereçam não só prazer, mas companhia, parceria e afeto.

QUEREMOS SER GLORIA STEINEM

Precisamos ter a coragem dessa jornalista que, nos anos 60, se infiltrou nos bares da Playboy, como garçonete, para revelar a situação degradante das moças que trabalhavam por lá. E esse foi apenas um dos materiais que tornaram essa profissional uma referência feminina. O artigo “Se os homens menstruassem”, deveria ser leitura obrigatória para as meninas valorizarem o poder que têm de fato.

QUEREMOS MAIS LUZ DE VELAS E MENOS PHOTOSHOP

Da Vênus de Botticelli à Gracyanne Barbosa de Belo (desculpem a comparação esdrúxula) somos diariamente convencidas de que há um modelo de beleza a ser seguido, ou melhor, consumido. Afinal, tudo se trata de uma relação de compra e venda. Vendem-nos um ideal para consumirmos mais produtos e, assim, nos aproximarmos desse modelo. Não queremos belezas retocadas em programas de edição. Queremos beleza de verdade, com imperfeições camufladas à meia luz, mas repletas de verdade.

QUEREMOS SER ZILDA ARNS

Também queremos mudar o mundo, ou melhor dizendo, fazer a nossa parte para isso. E mais, queremos fazer isso conciliando com uma carreira e uma família. Sendo lembrada tanto pela obra, quanto pelo jeito doce e feminino. E talvez, se tivermos um belo fim, morrer fazendo o que acreditamos.

QUEREMOS SER NÓS MESMAS

Queremos mostrar nossa garra, sem perder a doçura. Queremos deixar de ser alvo fácil do discurso midiático que impõe modelos de relações afetivas, sexuais e do próprio corpo. Queremos apenas poder exercer nossa feminilidade na mais absoluta plenitude. Falíveis, cheias de pontos fracos, de fragilidades, de incoerências, mas repletas de afeto, dispostas a se relacionar, ouvir, sem nunca perder a consciência de que não temos super poderes, por mais que pareçamos.

*Janaína Depiné é jornalista, diretora da Lead Comunicação, orgulhosa de ser uma mãe, profissional e mulher de carne e osso

Visitem: http://www.leadcomunicacao.com.br

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Uma resposta para “Helen Wright, Beyoncé e as mulheres que não queremos ser

  1. Uirá disse:

    E mulheres vivem mais para as mulheres em conceitos, e pros filhos na compaixão.
    Sejam elas quais são, amo suas complexidade.
    Mas me imponho tb.

    Machão isso né. hahahahahahahahahahahahahahhahhahahahahhahahahahaha

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