Variedades Femininas

Aqui se fala do universo feminino

POR UMA VIDA MELHOR

em 25 de maio de 2011

Telma Gimenez*

São inúmeras as manifestações na imprensa sobre o livro “Por uma vida melhor”, distribuído pelo MEC, através do Programa Nacional do Livro Didático, para o segundo segmento do ensino fundamental na Educação de Jovens e Adultos.  Quem acompanhou reportagem do Jornal Nacional soube que a polêmica se instalou porque os autores ousaram transpor a fronteira da academia e colocar na pauta escolar a questão da variação lingüística.

Os que tiverem oportunidade de acessar o capítulo diretamente em http://www.acaoeducativa.org.br/downloads/V6Cap1.pdf verão que o que se busca é ensinar as diferenças entre norma culta e variedades populares e que “escrever é diferente de falar”. O que doeu nos ouvidos de José Sarney e outros escritores familiarizados com a língua portuguesa “culta” parece ter sido a afirmação de que é possível falar “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. De acordo com os autores, no entanto, isto não deveria ser visto como “errado”, mas alertam que “dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito lingüístico”. O grande pecado que justificou o apedrejamento da obra foi terem afirmado que a “ideia de correto e incorreto no uso da língua deveria ser substituída pela idéia de uso da língua adequado e inadequado, dependendo da situação comunicativa”.

No debate provocado pelo recorte dado pela mídia à proposta dos autores afloram concepções de língua latentes em diversos segmentos sociais. Os lingüistas e acadêmicos vêem com naturalidade a proposta porque têm acompanhado pesquisas sobre variação lingüística e a questão do preconceito subjacente à idéia de que todos deveríamos falar de acordo com a norma culta. No entanto, como a reportagem da Folha de São Paulo de 22 de maio demonstrou, mesmo aqueles com alto grau de escolarização cometem os chamados “erros” gramaticais em situações de fala.

Por trás da falsa polêmica estão arraigadas visões transmitidas, inclusive pela escola, de que só existe um jeito “certo” de falar e escrever, visões essas que agora são reforçadas pelos que condenam o livro.  A obra se alia a propostas mais progressistas que diferenciam fala de escrita e, principalmente, demonstram que existem a norma culta e outras variantes de menor prestígio. Os que tivessem paciência de ler o livro na sua totalidade veriam que seu mérito está justamente em provocar essa consciência nos alunos, para que, longe de serem ensinados a “falar errado”, seriam levados a conhecer os modos como a língua também serve como fator de exclusão social.

O título da obra não poderia ser mais feliz: uma vida melhor se constroi também pela língua e por dominá-la nas suas várias manifestações, nos seus diversos gêneros. Uma vida melhor se faz pela aceitação da diversidade. Isto não significa, como muitos quiseram concluir, que a escola ensinaria a falar “errado” e sim que “incorreto” é uma valoração que tem como ponto de referência uma variante da língua elevada à categoria de “correta”. Um usuário competente da língua sabe distinguir qual tipo de linguagem empregar de acordo com a situação de comunicação na qual se encontra. A conversa de bar não permite a mesma linguagem que uma palestra em uma universidade. Um bilhete não tem o mesmo registro de uma petição. Conhecer e dominar a língua para se sair bem nessas diversas situações é um dos aprendizados que a escola deve proporcionar. Por isso, a reação é desproporcional e apenas reveladora da falta de amadurecimento da sociedade sobre questões que envolvem a linguagem como uma prática social.

*A Profª. Drª. Telma Gimenez é formada em Letras Anglo-Portuguesas pela Universidade Estadual de Londrina, Especialista em Biblioteconomia pelo College of Librarianship Wales, Mestre em Linguistica Aplicada pela PUCSP e Doutora pelo Departamento de Linguistics and Modern English Language da Lancaster University, Inglaterra.

Realizou também estágio(Pós-Doutorado) na Kettering Foundation, Estados Unidos, onde desenvolveu estudos sobre escola pública e democracia. Atualmente é Professora Associada da Universidade Estadual de Londrina, onde atua no curso de Letras Estrangeiras Modernas – Língua Inglesa e programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem orientando pesquisas no campo de ensino/aprendizagem de línguas estrangeiras e formação de professores.

Quer saber mais sobre a professora Telma? Acesse: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4789657U6

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5 respostas para “POR UMA VIDA MELHOR

  1. Nos sentimos muito honradas em publicar um texto da professora Telma, aqui no Variedades Femininas, ela é um exemplo para nós de luta e competência.

  2. Viviane disse:

    Querida Clara!
    Seu blog está lindo. Nessa correria estava difícil de acompanhar!
    Adorei o texto e a crítica da professora. Concordo totalmente.
    Beijos grandes

  3. Eliane disse:

    Acho que a questão é bem simples; não se trata de linguagem popular ou culta. Trata-se do uso CORRETO da linguagem. Se os pais falam: nois vai, seus filhos, com certeza, falarão nóis vai e perpetuarão essa linguagem INCORRETA. A criança ouve tanto e continuará a falar errado, até porque é mais fácil do que falar correto. E outra, ele ficará com vergonha de falar corretamente pois a ”turma vão gozar na cara dele”…..
    Gente, deletem esse capítulo da triste estória da educação no nosso pais. Eliane.

    • Na linguística o termo certo e errado não se usa, porque tudo depende da situação, o importante é ser entendido, esse é o objetivo da língua, usa-se adequado e inadequado. Em relação ao material didático, acho que ele não foi compreendido e as críticas foram exageradas, o que demonstra um desconhecimento da população em relação as teorias da linguística, que é a base da língua portuguesa.

      O uso da “linguagem incorreta” não serve para que as crianças aprendam a falar ou escrever assim, pois a melhor opção é a norma culta, claro! O importante para o aprendizado é a possibilidade de comparação entre a língua falada em algumas comunidades e a norma culta, um ótimo exemplo é fazer as crianças corrigirem essas frases, observando as normas de concordância, regência…

      Quando eu estava na escola, tive professores que usavam esses métodos e foi muito bom para o meu aprendizado, porque o importante não é saber que está “certo ou errado”, mas saber o que está “errado” e, principalmente, como fazer a “correção”.

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