Variedades Femininas

Aqui se fala do universo feminino

Pobreza não é sinônimo de merecimento

em 26 de outubro de 2012

Hoje estava vendo uns vídeos de academias de dança e dando risadas, naquele esquema de dar risada da desgraça, porque existe um certo humor no drama. A desgraça desses vídeos é qualidade técnica da dança, que são, geralmente, daquelas academias de quinta categoria, que treinam seus alunos com coreografias pífias, que se aproximam de lixo. Minha tristeza é perceber que existem coisas feitas pra pobre, sejam nessas academias de quinta ou em projetos sociais de quinta. Acham que o pobre não deve ter acesso a nada de qualidade, que pobre precisa é de resto, de coisinhas feias, desorganizadas, de lixo, porque acham que pobre é burro, pobre não tem “condições” de lidar com nada de boa qualidade.

Em paralelo a isso, essas mesmas pessoas que acham que pobre só merece o lixo cultural, defendem que o pobre é pobre, porque merece ser pobre, pois cada um tem aquilo que merece, tudo é merecimento… E é pra você que pensa assim que pergunto: você acha que eu que nasci numa família de classe média, tive acesso a boas escolas, tive acesso a museus, concertos, peças de teatro, aula de línguas… mereço mais do que aquele que nasceu na miséria? Filho de pai e mãe analfabeta, que passou fome na infância e no máximo teve acesso a uma escola pública de péssima qualidade? Quer dizer que eu tenho mais merecimento?

Que lógica de merecimento é essa? Fique sabendo que todos deveríamos ter acesso ao que há de melhor, melhores escolas, comida na mesa, roupa limpa e de qualidade, acesso à arte, esportes, aulas de língua, viagens… taxar alguém de melhor ou pior por não ter tido acesso a música erudita, por exemplo, ou à artes plásticas, ou a dança, ou ou… é criminoso, discriminatório, é concordar e contribuir pra desigualdade social!

Em minha experiência como cantora lírica percebi que só é preciso ter acesso, pois quantas vezes eu vi pessoas extremamente pobres, algumas miseráveis, emocionadas em seu primeiro contato com uma orquestra sinfônica. Quantas vezes vi pessoas relatando que nunca gostaram de música erudita, até ver uma orquestra pela primeira vez. Minha experiência dando aulas de canto pra crianças e adolescentes extremamente carentes – financeiramente – é que não tem diferença no deslumbramento e vontade de aprender a cantar, só foi preciso tomar contato pela primeira vez.

Percebo, nas minhas andanças por movimentos populares, que se faz projetos com muito pouco ou quase nada, que o governo repassa valores ridículos para as entidades, que são escolhidas por concorrência e não pela melhor estrutura, qualidade profissional ou proposta, quem ganha a concorrência é quem oferece menos, assim, se faz muito, com nada, são contratados profissionais com salários baixíssimos e mais uma vez para os pobres sobram quase nada, sobra o resto.

E é isso aí, para o pobre só sobra a exploração e a resignação, aquela conversa de: deixa como está, não tenho acesso à saúde, educação, transporte, cultura, não tenho acesso há quase nada, mas preciso aceitar… alguém vive as custas do meu trabalho, da minha exploração, mas preciso aceitar. Isso está errado! Não tem essa de merecimento, todos devem ter direito ao que existe de melhor no mundo!

Tenho um nojo tremendo de quem critica a inclusão educacional, que diz que lugar de pobre não é na universidade, porque na universidade só quem merece ou seja, aquele que nasceu com condições de ter acesso a educação ou aquele que precisa fazer milagre pra sair da miséria e conseguir transfigurar-se.

É fácil criticar se você sempre teve acesso a tudo, se teu pai e tua mãe te deu casa, comida, roupa lavada, cultura, educação, saúde… é fácil dizer que você merece mais do que aquele que passa fome, é fácil demais criticar, difícil é se colocar no lugar da miséria alheia e perceber que não tem merecimento nessa relação, existe é desigualdade, sofrimento, alienação e exploração.

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Uma resposta para “Pobreza não é sinônimo de merecimento

  1. Vandré disse:

    De fato, creio que a visão “assistencialista” que assolou nosso país em todos os seus períodos históricos mantém-se através desta lógica nefasta, relatada por ti neste texto. Se não tem como construir moradias dignas, asfalta-se os morros e quebradas, para que as pessoas, pelo menos, não sujem seus pés… tsc, tsc… como assim não tem como? É só distribuirmos verdadeiramente a renda! Continuo dizendo: em vez de aceitarmos “resignadamente” as migalhas, tomemos a força o pão inteiro!

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