Variedades Femininas

Aqui se fala do universo feminino

Coisas que uma sociedade racista faz por você

em 2 de setembro de 2013

Djamila Ribeiro no I Encontro Feminista de São Paulo.

Você, um belo dia, está na faculdade e vem uma pessoa que mal te conhece e te diz: “ai nossa, se eu fosse você, com essa beleza, não estava aqui não. Tinha arrumado um gringo rico, você sabe que eles adoram mulheres negras”. Poxa vida, me descobriram! Mas, é claro que é isso! Sou modelo manequim frustrada que tentou ser garota do tempo e mulata do Sargenteli e não conseguiu. Daí, tive a brilhante de ideia de perseguir um marido rico para me dar bem. Aí, pensei: onde posso arrumar um gringo rico? No curso de Filosofia! Fiz quatro anos de graduação, agora estou no mestrado, mas ainda não consegui. Mas, estou na luta!

Você vai levar sua filha pra praticar uma atividade esportiva. Já não fala muito com as pessoas porque tem preguiça delas. Abre um livro da Beauvoir pra ler, coloca sua cara no modo “não perturbe”, mas mesmo assim, do nada, vem uma alma que mal te conhece, mexer na capa do seu livro e te dizer: “estava te olhando de longe e não acreditei; vim ver mesmo se você estava lendo Beauvoir!” Mas é claro, que ela tinha que ficar surpresa, eu estudo Beauvoir no mestrado, já apresentei trabalhos sobre a obra dela, mas bem feito pra mim, que mandou não ter cara de quem estuda. E ainda por cima, estava lendo um livro em inglês, como assim, uma negra bilíngue? É o fim dos tempos!

De novo, você leva sua filha para praticar esporte. Enquanto está lá, ouve música porque tem preguiça das pessoas que lá estão. Aí, uma senhora, que não te conhece, se aproxima de você, faz você para de ouvir a linda da Nina Simone e te diz: “olha, estou procurando alguém pra limpar a minha casa, se você conhecer alguém, avisa o tal professor”. O professor, em questão, também era negro e com certeza a gente devia ser da mesma família. Lógico, a Thulane só está lá porque ele deu uma bolsa pra ela. Eu estava lá, no mesmo espaço que ela, esperando minha filha, (que pasmem, é negra!), mas eu deveria estar perdida por lá ou deveria ser consultora de recursos humanos domésticos para dondocas sem noção.

Você está em algum espaço que as pessoas julgam que não é pra você. As pessoas te olham com aquela cara de quem deixou esse povo entrar ou te olham como se você fosse algum experimento científico que deu errado. Não satisfeitas, elas vem te abordar e fazem um interrogatório: “onde você mora?” “Trabalha com o que?” “seu pai fazia o que?” “onde sua filha estuda?” Pessoas que nunca te viram ou que mal te conhecem. É um excelente modo de se fazer amizade, na verdade, é super comum você sair fazendo perguntas invasivas pra pessoas que você nunca viu. Inclusive, é um método recomendado pelo guia de etiqueta da Glória Kalil.

Você está conversando com algumas pessoas, quando de repente, uma para, te olha com surpresa e diz: “nossa, você é inteligente, fala bem!” Puxa, que pessoa bacana, ela ficou surpresa por eu saber falar! Ou quando não muito, quer ser parabenizada por não se considerar racista: “sabe, eu não discrimino ninguém, inclusive deixo meus filhos terem amizade com pessoas como você!” Olha,que pessoa maravilhosa!! Da próxima vez vou pegar o nome completo dela e mandar fazer uma placa em homenagem a ela!

Depois, ainda tem gente, que vem dizer que a gente só fala em racismo e fica postando o vídeo do Morgan Freeman dizendo que o melhor modo de acabar com o racismo é não falar sobre. Claro, porque a gente fala de racismo porque gosta. A sociedade é tão maravilhosa, todas as pessoas são tratadas igualmente e com respeito, que daí, a gente seu auto oprime. Na verdade, vou contar um segredo: @s pret@s, as bichas, as sapatas, as travas e trans, se reúnem mensalmente e fazem uma cúpula noturna. A cada reunião, a gente decide quem vai ser o grupo oprimido da vez. Aí, a gente se auto flagela também que é pra dar mais veracidade e emoção. Ironias, a parte, como tem pessoas que não tem a mínima noção do que está fazendo no mundo! A impressão que dá é que elas vieram de um planeta distante e resolveram parar a nave espacial na Terra, olharam para o Brasil, quiseram ficar, mas mantém a cabeça no outro planeta. Não tem a mínima noção dos problemas sociais do país em que vive, e pior, culpa o outro, quando esse outro se impõe contra isso. Impressionante. Ou tem aquelas pessoas que dizem que só o pensamento positivo cura e que devemos parar de falar no mal que nos aflige. E ficam numa bolha de otimismo que dá medo, vai que pega. Ser positiva diante da vida é importante, não nego, mas achar que tudo se resolve com isso, beira à loucura. Será que o Amarildo não pensou positivo o suficiente? Ah, me poupe. Algumas pessoas, em vez de questionarem porque estão incomodadas com sua presença, querem procuram motivos para legitimar o incômodo delas te incomodando. Praticamente um trava língua. Já naturalizaram tanto que negras não devem estar em certos espaços, que não se questionam sobre isso, ao contrário, acham que você está invadindo o espaço delas.
Por isso, que digo: não sou obrigada a conviver com esse tipo de gente por vontade própria. Já basta ter que enfrentar o racismo institucional e pessoas que não dá pra evitar. Justamente por isso, que não dou a mínima para algumas pessoas, que me afasto ou ignoro mesmo. Não faço a mínima questão. Não sou obrigada a conviver com pessoas que ficam muito surpresas por me acharem inteligente. E ouvir isso de pessoas que acham que o Che Guevara foi um assassino frio e sanguinário e acreditam no golpe comunista de 2014. Ouvir isso de pessoas que colocam @ filh@ numa escola que usa conceitos de Piaget e Vigotsky e fiam perturbando a professora perguntando porque não ensinam matemática de modo “convencional”. Daí, quando você fala brevemente sobre os dois autores e fala sobre o construtivismo, aí sim elas tem certeza que você é a criação do vírus ébola. Eu quero estar perto de pessoas que tratam as outras como pessoas. Uma frase tão óbvia, mas ao mesmo tempo tão distante. Depois não adianta me chamar de antipática, eu é que não vou morrer de úlcera e nem cansar minha beleza tendo que conversar com pessoas assim. Como diz, meu lindo amigo, Didz de Lautaro, já basta o mundo pra nos oprimir, não precisamos de pessoas assim no nosso convívio. Tomei essa resolução pra minha vida; me faz muito bem. Sem culpas, sem medo de ser rotulada de anti social. E, falando no lindo do Didz, adorei uma frase que aprendemos num curso que fizemos juntos: “não basta resistir, tem que vicejar!” E continuarei vicejando negra e linda e jogando minhas tranças para essas pessoas sem noção.

* Texto de Djamila Ribeiro – Mestranda no programa de Pós-Graduação em Filosofia na Unifesp.  Djamila é uma mulher inteligente pra caramba, filósofa transgressora,  absurdamente, linda e mãe de uma menina ultra graciosa. 

Djamila Ribeiro

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20 respostas para “Coisas que uma sociedade racista faz por você

  1. Franciele Scopetc disse:

    ótimo: Fiz quatro anos de graduação, agora estou no mestrado, mas ainda não consegui. Mas, estou na luta!

    hehe, adorei!

  2. Eu sou parda e nordestina, portanto, tenho “cara de pobre”. Também sou doutora em ciência política pela Unicamp e casada com um americano uia-que-branquinho-lindo da mesma área profissional. E a minha vida é um desassossego, pois sempre tenho que explicar para esses ~bem intencionados~ amiguinhos como que raios consegui casar com o homi. Certa vez, suprema audácia, uma mulher que trocou comigo apenas duas ou três palavras numa festa me perguntou se a família dele tinha me aceitado numa boa. Vou confessar que to bem amarga, viu. Esperança quase zero na humanidade.

  3. rose mary cerqueira disse:

    Gente , que texto lindo!

  4. Luciana Estevam disse:

    “sabe, eu não discrimino ninguém, inclusive tenho amigos assim!” Olha, que pessoa maravilhosa!! Da próxima vez vou pegar o nome completo dela e mandar fazer uma placa em homenagem a ela!
    Entendo completamente seus sentimentos, consenso, ando com preguiças das pessoas tbem!

  5. cara, o assunto do teu texto é ótimo, gostei muito da introdução sobre a função e expectativa social que se tem da mulher e principalmente da negra: ser bonita e casar um homem/ gringo rico, mas eu penso que há determinados pontos que ocorrem por motivação iguais à pessoas não negras como por ex ficar maravilhado com a inteligência ou oratória, retórica de alguém.
    da mesma forma que em ambientes em que há muitas crianças, mães e pais, obviamente sempre virá uma “tia”, alguém querendo saber da sua vida pra puxar assunto, se envolver de alguma forma mais “íntima”, pra quebrar o gelo, e isso inclui sua profissão, pais, lugar onde mora e até pedir informação sobre limpeza.
    e sobre o livro da Simone, as vezes as pessoas vao correndo conversar com vc por identificação literária, sociológica. dependendo da situação eu iria falar com vc ou outras pessoas nao negras por interesse.
    agora, concordo sobre o absurdo de frases como ” deixo meus filhos andarem com pessoas como vc.” realmente, isso é no mínimo questionável.
    de qualquer modo, obrigada pelo belo texto e contribuição para o debate.
    ah! e obrigada tbm pela representação no Na Moral.

  6. Camila Paim disse:

    Adorei o “Ouvir isso de pessoas que colocam @ filh@ numa escola que usa conceitos de Piaget e Vigotsky e ficam perturbando a professora perguntando porque não ensinam matemática de modo “convencional”. rs como é vdd isto. Adorei Djamila.

  7. Carina Djamila disse:

    Adoreiiii Adoreiii Adoreiii

  8. Thaís S. disse:

    Li com atenção palavra por palavra desse texto, como se cada letra dissesse quem eu sou e o que penso. Com exceção do mestrado, pois parei na graduação, rs.
    Liindo texto! Parabéééns!!

  9. Letícia disse:

    Mto bom. Mas outro dia fui xingada num grupo de negros, pq eu conheço negros ricos. O moderador, negro, perguntou em tom ríspido: “onde estão esses negros ricos?”. A vá que vc não conhece…Tem alguns q fingem que lutam contra o racismo. Eu não cairia na tentação de fazer essas perguntas do seu texto, pois conheço médicos, promotores, advogados, engenheiros, arquitetos etc, etc, negros, lindos e inteligentes. algumas com, seus muito bem cuidados, cabelos black power.

  10. Anna Clara disse:

    parabéns! texto incrível

  11. Léo disse:

    Mas hoje em dia temos que ficar surpresos mesmo com qualquer pessoa que seja inteligente, independente da etnia.

  12. marisa disse:

    Querida, vc é só uma “chata”, só isso!!!!!

  13. Janine disse:

    Não acho que ela seja antipática, o mundo é que é. Ela está muito certa em não dar confiança pra gente preconceituosa e que se acha no direito de questionar as razões do outro. Ótimo texto.

  14. Vanessa disse:

    “Eu quero estar perto de pessoas que tratam as outras como pessoas. Uma frase tão óbvia, mas ao mesmo tempo tão distante. Depois não adianta me chamar de antipática, eu é que não vou morrer de úlcera e nem cansar minha beleza tendo que conversar com pessoas assim. Como diz, meu lindo amigo, Didz de Lautaro, já basta o mundo pra nos oprimir, não precisamos de pessoas assim no nosso convívio. Tomei essa resolução pra minha vida; me faz muito bem. Sem culpas, sem medo de ser rotulada de anti social.”

    Eu tb tomei essa decisão na minha vida. Cansei da falta de noção alheia.

  15. Roberta Froes-Silva disse:

    Perfeito texto. Me identifico em cada linha. Sou professora universitária, pós doutorado em Química e engenharia e sou obrigada a ouvir os mesmos comentários. Porém usa da tática de me desligar quando a estupidez alheia vem me incomodar (para não responder conforme mereciam mas as vezes …) e também não faço a menor questão de ser mais sociável.

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