Variedades Femininas

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Como dar um renascimento às relações

em 18 de maio de 2015
Kalima quando morava no interior de São Paulo e ainda estava saudável.

Kalima quando morava no interior de São Paulo comigo e ainda estava saudável.

Nos últimos dias tenho pensado muito sobre as relações que construímos, como solidificamos as coisas e achamos que por ter sido sempre assim, será sempre do mesmo jeito. Entretanto, pessoas mudam e a forma como olhamos para todas as coisas também, por isso, congelar as situações pode nos trazer sofrimento. Dessa forma, entender que a relação com o outro é uma construção nossa, pode nos ajudar a dar um novo renascimento, se permitindo viver experiências diferentes dentro de algo que parecia ser fixo.

Vou contar uma história que aconteceu comigo e que ilustra bem isso. Tenho uma companheira de 4 patas chamada Kalima, ela apareceu em minha vida logo após a morte do meu gato Anaxágoras, que foi bem difícil e traumática, mas minha vontade de voltar ao local onde o conheci e o desejo de retribuir todo o afeto que eu tinha recebido, me fez conhecer Kalima e outros gatos que estavam sofrendo maus tratos. Fiz aquilo que o povo chama de resgate, eram muitos gatos da raça persa que viviam em uma situação deplorável em um gatil no Paraná. Peguei um número grande de gatos, cuidei e doei, fiquei com três que considerei com o estado mais complexo, seja de saúde física ou mental. Resumindo essa história gigante, tive muitas dificuldades de lidar com Kalima, pois ela me lembrava muito meu gato Anaxágoras e essa lembrança me fazia rejeitá-la um pouco. Dei todo carinho que consegui, mas tive dificuldade de estabelecer uma conexão muito profunda.

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Mudei de cidade algumas vezes e Kalima sempre me seguiu, sendo minha companheira, mas apesar disso, sempre tinha a sensação de que ela não gostava muito de mim. Quando cheguei em São Paulo ela também veio, morou comigo por um tempo, mas encontrei um companheiro que era bem egoísta neste aspecto e não conseguia compreender o que é amar profundamente um ser, sendo ele gato, gente, lagartixa ou sei lá. Como eu estava muito doente e não dava conta nem do meu corpo, acabei arrumando uma desculpa interna e aceitando que ela fosse morar com a minha prima por um tempo, até que eu melhorasse e nós mudássemos para uma casa maior. Melhorei, o casamento acabou e a vida seguiu, tive muitas dificuldades de pegar Kalima de volta, pois minha prima a amava muito e sempre achei que ela não gostava muito de mim. Só que Kalima ficou muito doente, não sabia ao certo do que se tratava, pois não a acompanhava ao veterinário, mas em algum momento percebi que ela precisava voltar a morar comigo e a peguei de volta. Todo esse período foi importante pra mim, pois não somos mais os mesmos seres e nossa relação renasceu, com uma absoluta confiança uma na outra.

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Neste dia, estava um sol lindo, meu vestido tomara que caia e eu saímos pra tomar um sol, na volta Kalima pediu braço e ficamos assim por algumas horas, com a bichinha muito mal e eu sem saber se ela resistiria mais um dia.

Kalima está muito doente e me ensina a como lidar com muitas questões, inclusive com a morte, com o desapego diante das coisas e da vida. Ela tem enfrentado tudo isso com muita coragem e mesmo diante da dor diária da aplicação do soro, segue firme, sendo furada sem focinheira, sem me atacar e me deixando administrar todos os remédios que precisa tomar. Aquela gata assustada e imprevisível que podia te arranhar com o som de algo muito barulhento ficou no passado, hoje tenho total segurança em permitir que crianças a coloquem no braço ou em aplicar qualquer tipo de procedimento.

E assim seguimos, renascemos uma pra outra e estamos construindo uma parceira que se baseia em cuidar da outra. Posso afirmar que sou muito grata pela sua presença em minha vida, não importa o quanto isso vá durar. Depois da última crise que parecia não haver mais esperanças, já estamos juntas há dois meses e com muita alegria. Acho que dar renascimento é entender que as pessoas passam por nossas vidas, são hóspedes, uma hora chegam e em outra vão. Saber que as coisas não são sólidas nos ajuda a encarar esse processo, pois nada dura pra sempre e podemos nos surpreender sempre. Quer surpresa maior do que tem sido essa minha relação com Kalima? É óbvio que ela confiava em mim, era a única que conseguia segurá-la quando entrava em desespero por algo, mas ter uma gata me olhando com confiança, sem me retalhar, enquanto recebe cuidados médicos dolorosos é um renascimento. Hoje ela confia em mim e confio nela.

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2 respostas para “Como dar um renascimento às relações

  1. Bernadete disse:

    Linda sua história de amor com esses bichinhos. Todos os seres tem a natureza de Buda e precisamos dar um renascimento elevado a todos os seres reconhecendo essa natureza ilimitada e luminosa. Precisamos ver essa natureza em nós também, texto lindo.

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