Variedades Femininas

Aqui se fala do universo feminino

Sempre é tempo de recomeçar.

Todo mundo falando sobre 2016, até entendo e tenho a impressão que está sendo um ano bizarro. Olho para mim mesma há um ano atrás e se alguém tivesse me dito tudo que aconteceu este ano, eu não iria acreditar. Então, não sei, mas tenho a impressão que 2016 está sendo um ano de recomeços, de novas possibilidades. Algumas vezes é necessário zerar tudo para recomeçar e pode ser que 2016 seja assim.

Tive um dia bem emblemático hoje, daqueles tão significativos que se você tivesse me falado há 15 anos atrás o que vivi hoje, eu não acreditaria. Então, obviamente me trouxe muitas lembranças e reflexões que gostaria de compartilhar com vocês. Farei um percurso meio doido, mas pode ser que no final faça algum sentindo.

Hoje é o aniversário de um boy que namorei durante um tempo na minha vida. Boy legal, doce, divertido, parceiro e de uma leveza sem igual. Sabe aquele tipo de boy que você não vê tem muitos anos, não sabe nada da vida da criatura, mas fica feliz por ter cruzado com o cidadão que te fez bem pra burro? Desejo que ele esteja vivendo uma vida super boa e feliz! Terminei o relacionamento em um momento emblemático na minha vida, mas não foi por falta de amor, admiração ou algo assim, terminei por saber que tinha uma vida me esperando lá fora e aquele não era o momento de criar amarras, isso inclue casar e essas coisas todas. Terminei o namoro em dezembro e o ano seguinte seguiu emblemático, virando tudo de cabeça para baixo. Foi nele que comecei minhas histórias de andança pelo país.

H0je foi um dia simbólico para mim, e sei lá porque minha família  e eu nos lembramos do aniversário dele, não é curioso? E isso me fez pensar em tudo que tive que desbravar depois, no quanto o ano 2000 – término do namoro – foi de reinício e isso me conectou diretamente com 2016. Não sei, nunca vi tanta gente reclamando de um ano ou até comentando com perplexidade das coisas que ocorreram. Não sei mesmo, mas com tudo que eu previa que poderia ocorrer na política nacional, por exemplo, nem nos meus maiores pesadelos eu poderia visualizar o que estamos vivendo atualmente e muito menos com o futuro que está se desenhando. No mundo são muitos exemplos, mas Trump presidente é algo que nunca tive a ousadia de “pesadelar”.

Na minha vida pessoal, já passei por muitas reviravoltas, muitos reinícios, mas esse ano acho que zerei todas as tabelas. Esse ano fiz uma tatuagem, escrevi um livro e aprendi uma nova língua. Ok, isso é só uma parcela bem pequena do que me aconteceu, mas já é muita coisa. E você nem imagina a intensidade da lista que surgiria, caso eu resolvesse fazer uma.

Eu acho que tudo depende da perspectiva que olhamos as coisas, então apesar de muitas reviravoltas, o mergulho que dei dentro de mim mesma este ano foi gigante. Sabe quando você faz uma lista de coisas que você acha que não poderia te acontecer ou você fazer? Aí as coisas acontecem e você se desconstrói, se parte, se remenda e vive? Então… recomeços.

Então é isso, finalizo o texto com esse olhar otimista de um sagitariano, – a coisa do foi ruim, mas foi boa -em homenagem ao meu namorado da adolescência, o leve sagitariano de sorriso fácil. Adoro sagitarianos, acho que só eles para serem/terem essa mistura de doidera com leveza. Isso me lembra meu boy sagitariano saltitando e me fazendo cócegas ao mesmo tempo enquanto eu tento desbravar o frio de 1 grau de outono em uma madrugada gélida com muito vento na cara – o pior é o vento. Acho que é meio isso, enquanto o vento corta a minha cara amarrada, o sagitariano ri e desbrava o vento cortante. Vamos desbravar e seguir em frente, como sagitarianos que encaramos o perigo com o sorriso no rosto. 2016 está sendo bomba, mas teve coisa boa pra burro e não sei, por que não acreditar que precisamos zerar para recomeçar? O chumbo foi pesado, muitas bombas na nossa cara mesmo, as vezes literalmente, mas é assim, pelo menos na minha vida foi um ano fantástico, talvez o melhor que vivi até agora, nunca tinha vivido medos tão intensos, mas também nunca tinha sido tão feliz. Acho que em momentos intensos nos resta se fingir de mortas ou pegar a pexeira e ir para cima. Como uma boa pernambucana, eu vou para cima sempre. Sério, faz uma reflexão aí: teve alguma coisa boa em 2016 na sua vida? Na minha teve coisas inimagináveis, algumas ruins e outras maravilhosas. É isso, é tudo uma questão de perspectiva. “Uma beija e uma sorriza”.

Feliz aniversário, João!

E vai sem imagem, acho sinceramente que este texto não precisa de imagem. 🙂

Anúncios
Deixe um comentário »

Parceria entre mulheres: avisem a atual que o ex é um agressor.

 

 

abra25c325a7o2bcoletivo2bno2btanque2balerta2bpara2ba2bpreven25c325a725c325a3o2bda2bsa25c325bade2bda2bmulher2b-2bimprensa2b252812529

Imagem tirada daqui: http://lagesnoticias.blogspot.com.br/2015/10/outubro-rosa-abraco-coletivo-no-tanque.html

Tem um tempo que comecei a refletir sobre o assunto, foi graças a uma postagem da minha amiga Geo. Nós mulheres somos criadas para sermos rivais, ouvimos muito que mulheres não são amigas de verdade ou que não somos confiáveis. Pois é, fiquem sabendo que apesar desses absurdos que nos dizem, nós somos gente. Isso significa que somos de todos os tipos, logo, SIM, MULHERES SÃO CONFIÁVEIS E AMIGAS! Esse discurso é só uma estratégia do patriarcado para nos manter aprisionadas, pois se nós nos unirmos, ganharemos essa luta contra a opressão facilmente. Como assim existe uma categoria de ser humano que não é confiável? Você, miga, é confiável? Porque eu sou e muito confiável. Além disso, sou muito amiga, quem é meu amigo ou amiga sabe disso muito bem disso.

Seguindo os esclarecimentos iniciais, vamos lá! Você namorou um cara nojento, crápula, machista de merda, cabra safado, como você gostar de chamar. Esse cidadão cometeu violência doméstica com você (isso inclui te bater, humilhar, fazer gaslighting e/ou afins – lembrando que a violência psicológica DEVE ser levada em consideração). Aí o cara começa a namorar outra, você sabe que o triste é um predador, então o que você vai fazer? Ficar em silêncio? Ok, tem gente que não consegue lidar e isso é super válido, pois cada pessoa tem o seu tempo. Mas, digamos, que você tenha condições de lidar com a situação, que você fará?

Leia o resto desta entrada »

Deixe um comentário »

Qual o lugar da doença em nossas vidas?

felicidade1

Imagem retirada daqui: http://www.escolapsicologia.com/felicidade-construa-o-seu-suporte/

Nós seres humanos buscamos a felicidade e essa busca implica que todos estão sempre em busca dela, mesmo quem estupra, quem mata, quem rouba, todos estão em busca da felicidade. Acho que o problema está no nosso entendimento de felicidade, na motivação que construímos para “conquista-la”. Mas, infelizmente, essa felicidade é condicionada, por tanto, está sempre sujeita as impermanências da vida. Ficamos tão felizes por ter conseguido uma promoção no trabalho, mas logo perdemos essa felicidade ao nos deparamos com alguma perda, que pode ser até do próprio emprego.

Leia o resto desta entrada »

Deixe um comentário »

Como dar um renascimento às relações

Kalima quando morava no interior de São Paulo e ainda estava saudável.

Kalima quando morava no interior de São Paulo comigo e ainda estava saudável.

Nos últimos dias tenho pensado muito sobre as relações que construímos, como solidificamos as coisas e achamos que por ter sido sempre assim, será sempre do mesmo jeito. Entretanto, pessoas mudam e a forma como olhamos para todas as coisas também, por isso, congelar as situações pode nos trazer sofrimento. Dessa forma, entender que a relação com o outro é uma construção nossa, pode nos ajudar a dar um novo renascimento, se permitindo viver experiências diferentes dentro de algo que parecia ser fixo.

Vou contar uma história que aconteceu comigo e que ilustra bem isso. Tenho uma companheira de 4 patas chamada Kalima, ela apareceu em minha vida logo após a morte do meu gato Anaxágoras, que foi bem difícil e traumática, mas minha vontade de voltar ao local onde o conheci e o desejo de retribuir todo o afeto que eu tinha recebido, me fez conhecer Kalima e outros gatos que estavam sofrendo maus tratos. Fiz aquilo que o povo chama de resgate, eram muitos gatos da raça persa que viviam em uma situação deplorável em um gatil no Paraná. Peguei um número grande de gatos, cuidei e doei, fiquei com três que considerei com o estado mais complexo, seja de saúde física ou mental. Resumindo essa história gigante, tive muitas dificuldades de lidar com Kalima, pois ela me lembrava muito meu gato Anaxágoras e essa lembrança me fazia rejeitá-la um pouco. Dei todo carinho que consegui, mas tive dificuldade de estabelecer uma conexão muito profunda.

IMG_20150420_133313921

Mudei de cidade algumas vezes e Kalima sempre me seguiu, sendo minha companheira, mas apesar disso, sempre tinha a sensação de que ela não gostava muito de mim. Quando cheguei em São Paulo ela também veio, morou comigo por um tempo, mas encontrei um companheiro que era bem egoísta neste aspecto e não conseguia compreender o que é amar profundamente um ser, sendo ele gato, gente, lagartixa ou sei lá. Como eu estava muito doente e não dava conta nem do meu corpo, acabei arrumando uma desculpa interna e aceitando que ela fosse morar com a minha prima por um tempo, até que eu melhorasse e nós mudássemos para uma casa maior. Melhorei, o casamento acabou e a vida seguiu, tive muitas dificuldades de pegar Kalima de volta, pois minha prima a amava muito e sempre achei que ela não gostava muito de mim. Só que Kalima ficou muito doente, não sabia ao certo do que se tratava, pois não a acompanhava ao veterinário, mas em algum momento percebi que ela precisava voltar a morar comigo e a peguei de volta. Todo esse período foi importante pra mim, pois não somos mais os mesmos seres e nossa relação renasceu, com uma absoluta confiança uma na outra.

IMG_20150329_223631299

Neste dia, estava um sol lindo, meu vestido tomara que caia e eu saímos pra tomar um sol, na volta Kalima pediu braço e ficamos assim por algumas horas, com a bichinha muito mal e eu sem saber se ela resistiria mais um dia.

Kalima está muito doente e me ensina a como lidar com muitas questões, inclusive com a morte, com o desapego diante das coisas e da vida. Ela tem enfrentado tudo isso com muita coragem e mesmo diante da dor diária da aplicação do soro, segue firme, sendo furada sem focinheira, sem me atacar e me deixando administrar todos os remédios que precisa tomar. Aquela gata assustada e imprevisível que podia te arranhar com o som de algo muito barulhento ficou no passado, hoje tenho total segurança em permitir que crianças a coloquem no braço ou em aplicar qualquer tipo de procedimento.

E assim seguimos, renascemos uma pra outra e estamos construindo uma parceira que se baseia em cuidar da outra. Posso afirmar que sou muito grata pela sua presença em minha vida, não importa o quanto isso vá durar. Depois da última crise que parecia não haver mais esperanças, já estamos juntas há dois meses e com muita alegria. Acho que dar renascimento é entender que as pessoas passam por nossas vidas, são hóspedes, uma hora chegam e em outra vão. Saber que as coisas não são sólidas nos ajuda a encarar esse processo, pois nada dura pra sempre e podemos nos surpreender sempre. Quer surpresa maior do que tem sido essa minha relação com Kalima? É óbvio que ela confiava em mim, era a única que conseguia segurá-la quando entrava em desespero por algo, mas ter uma gata me olhando com confiança, sem me retalhar, enquanto recebe cuidados médicos dolorosos é um renascimento. Hoje ela confia em mim e confio nela.

2 comentários »

Sobre amor, apego e violência.

Um dos maiores obstáculos de nossas vidas é o apego, e não nos apegamos só as coisas, mas também as experiências. Nos relacionamentos afetivos não seria diferente, nos apegamos as nossas experiências. Tenho refletido muito sobre o assunto, pois muitas vezes me reúno com um grupo de amigas: todas mulheres com cargos executivos, 100% independente financeiramente, ótima formação acadêmica, empoderadas de seus corpos, livres, comilonas, mas muito machucadas pelos homens e com muito medo de viver novos relacionamentos.

E a minha questão é essa: como desapegar das experiências de violência que vivemos e que determina muitas de nossas atitudes futuras? Não acho que não devemos observar, pelo contrário, infelizmente, homens agressores tem sido o “normal”, não a exceção, então muitas mulheres que foram vítimas de violência se fecham e começam a procurar indícios de possíveis atitudes de agressores e para evitar agressões futuras. Acho que o caminho é esse mesmo, pois precisamos saber aquilo que queremos e aquilo que não queremos, e acho que é importante saber que não queremos mais ser agredidas por machistas de plantão.

Posso falar por mim, não lido muito bem com homens machistas, não tenho paciência e sou tolerância zero com possíveis agressores. Isso não quer dizer que eu não tenha compaixão pelos seres, até tenho, mas não vou permitir que me agridam. O problema é quando em nome desse medo, nos fechamos, completamente, para novas relações. Veja, não estou dizendo que é necessário ter uma relação com alguém para sermos felizes, só que também não devemos achar que todas as pessoas da face da terra são agressores. Acho que faz parte do processo daquilo que vivemos ter medo, mas não precisamos ser dominadas pelo medo.

Falar é fácil, pois quanto mais olhamos, mas vemos agressores e não é paranoia não, vivemos em uma sociedade super machista e reproduzimos modelos hetenormativos e violentos. Um casal LGBTT também pode reproduzir esse modelo, incluindo de violência. Mas estou me referindo a mulheres heterosexuais/cis, embora acho que tudo pode ser transplantado e adaptado.

Nós mulheres vivemos pressionadas para “termos alguém em nossas vidas”, como se só tivéssemos algum valor se encontrarmos um parceiro, é muito comum ouvir que quem muito escolhe será escolhida ou que é melhor agarrar o primeiro que encontrar do que ficar só. Acho isso assustador, pois não precisamos de ninguém para sermos felizes e não somos menos por não termos um parceiro, até porque a maioria dos homens que vejo por aí não são parceiros, são agressores. Isso é sério, sem piada, homens aprendem a ter um comportamento egoísta e agressor, fazendo o possível para diminuir as mulheres, fazem do terror e da violência doméstica o usual. Olhando para minha vida, só lembro de um namorado que não tenha sido violento comigo e olhe que sou o raio da siribibila, tenho muita compaixão, mas não quero agressor perto de mim, indico terapia, psiquiatra, pois acho que é necessário tratamento, mas não preciso virar enfermeira de macho agressor, básico.

Acho que é possível se relacionar sabendo quais são os seus limites e não permitindo ser violentada em nome de um medo de ficar só, para isso é super importante nos desapegarmos das experiências que vivemos, soltar o sofrimento e seguir com a vida, mas pronta pra dar um tome na monte de machinho que tente tirar onda, lógico, mas nem todo homem é agressor e nem todo relacionamento precisa ser complicado assim, até porque não existe um modelo de relacionamento. Meu desejo é que os homens agressores conseguissem ter a lucidez de perceber que esse ciclo de violência não leva a nada, só ao sofrimento e destruição. A grande maioria das mulheres que já conheço me relataram algum momento de violência e muitas delas têm consciência de que viveram violência. Isso é assustador! Meu desejo é que sejamos felizes, livres de sofrimento.

Deixe um comentário »

Sobre o amor romântico

Imagem tirada daqui: http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-650706356-almofada-amor-da-minha-vida-presente-namorada-romantico-nasa-_JM

Estou querendo escrever esse post há dias, mas acho esse um assunto tão chato que dá preguiça. Escrevi um pouco sobre amor romântico na minha pesquisa de mestrado e acho que é um tema interessante -academicamente-, mas pensar nesse tipo de amor idealizado é chato pra caramba.

Eu não acredito em amor romântico e acho uma grande baboseira acreditar nesse tipo de idealização, pois amor romântico é isso: idealização. Entretanto, tudo na vida é impermanência, nada é sólido, então não dá pra acreditar que algo é pra sempre e ainda mais colocar toda a expectativa de felicidade em cima de outra pessoa. Se você muda, por que a outra pessoa não pode mudar? Ela vai mudar sim, colega. O pra sempre não deve ser a chave de nada, pois não existe o pra sempre, no mínimo você ou elx vão morrer um dia.

Não acredito em um amor suspirante e não quero isso pra minha vida, pois quero é manter minha energia estável apesar das instabilidades alheias. Imagina se quero que meu humor mude de acordo com a atenção de vou receber ou não de outra pessoa? Sou mestra no problema seu. Quer me ligar? Problema seu. Não quer me ligar? Problema seu. E se eu sumir da sua vida? Problema seu também rsss. Muita gente não dá conta de lidar comigo por causa disso, mas faz parte da vida também, sigo desse jeito e posso te afirmar que sofro muito menos, mas isso não quer dizer que eu não ame, pelo contrário, eu amo pra caramba e amo profundamente, assim como tenho plena capacidade de continuar amando e desejando a felicidade de gente que me fez mal, pois amar é bom e não tira pedaço. Só que criar expectativas e projetar, aí acho que não é algo lúcido não e minha busca é exatamente por esse tipo de desapego.

E esse tipo de coisa tem se naturalizado em minha vida, fiquei até meio estranha. Ano passado estava com o cara que acho mais gato no mundo. O cidadão colocou um filme romântico pra ver comigo, daquele tipo que sinto como uma tortura: amor romântico e apegado no nível mais monstro. O que eu fiz? Terminei o filme rindo e comentando o quanto aquilo era bizarro. Ok, sou meio absurda, mas o que posso fazer? Pra mim é realmente bizarro uma relação cheia de juras de amor melosas e uma quantidade absurda de promessas. Eu não prometo nada, pois sei que posso mudar de ideia no meio do caminho. E também não lido bem com apego, desde apego ao corpo do outro, a apego a uma realidade de sonho 100% criada.

Amar é desejar que o outro seja feliz e livre, estar junto é uma parceria que pode durar um dia ou a vida inteira, pois o tempo não importa e não pode ser controlado. Faz parte da vida viver as experiências e lidar com as impermanências. E isso inclui todo tipo de parceria: amizade e afins. Adoro a metáfora de nos relacionarmos com as pessoas como se fossem hóspedes: livres para viver momentos bonitos conosco e também nos deixar a qualquer hora.

Deixe um comentário »

URUBU-CARNIÇA- PORRADA NA MUNDIÇA E ENDOMETRIOSE.

Acho que algumas pessoas que são extremamente egoístas. Vejo sempre os comentários das minhas amigas sobre o quanto são diminuídas em sua dor, como se elas tivessem culpa de sua condição ou faltasse esforço da parte delas. Jogo do contente não funciona nestes casos, fingir que nada de grave está acontecendo e não poder expressar a sua dor é uma tremenda falta de sensibilidade. Vejo o tratamento de endometriose com um olhar interdisciplinar: tratamento tradicional com um ou uma ginecologista especializada em endometriose, especialistas em realização de exames para detecção da doença, clínicas de dor, mas também, acupunturistas, fisioterapeutas, psicólogas, homeopatas, massagistas, meditantes, mantras de prajnaparamita… Mas o principal é o olhar amoroso, pois ninguém é uma doença, ela só está transitando pela nossa vida, pois nada é sólido. Pensar assim, não significa diminuir a dor do outro, mas respeitar os seres humanos que sofrem de endometriose, apoiando-os em seu caminho. No grupo que faço parte, são história de “mulheres” muitas vezes cansada, mas posso garantir que o que as deixa mais cansada são os abusos e as intolerâncias, dizer para que se calem. Essas guerreiras são pessoas que possuem uma doença oportunista que não tem cura e que se agarra nos locais mais estranhos do corpo, é no mínimo falta de humanidade, fica pagando de bonzinho ou boazinha e falando merda, julgando a dor dos outros. Toda dor precisa ser acolhida com carinho, pois o sentimento do outro também está em jogo. Acho super normal que a portadora de endometriose se desespere algumas vezes ou até sempre, afinal, quem aguenta tantos exames, remédios, internações e dor,muita dor? A endometriose se manifesta individualmente em cada uma, tem aquelas poucas assintomáticas, mas que em meio ao silêncio do corpo vão perdendo a capacidade reprodutiva, que é o sonho de tantas pessoas. O que as portadoras precisam é de visibilidade da doença, acolhimento, tratamento gratuito com especialistas, medicamentos de alto custo, colocação de mirena e implanon pelos planos de saúde e pelo SUS. E para ganharmos essa luta é necessário debater, mostrar o que é a vida de uma portadora.E vou dizer mais, você que está com sua cara de bunda, no facinho do bercinho de papai e mamãe, não sabe bexiga nenhuma na vida, pois não sabe a dor causada por uma ignorância, o que é ser olhada como um ser menor por possuir uma doença considerada menor, praticamente, um desejo seu de ficar doente e chamar atenção. Se eu fizesse uma pesquisa formal com portadoras de endometriose para entender o quanto já se sentiram diminuídas, humilhadas ou ofendidas por quem prefere diminuir a sua dor,os números seriam seguramente espantosos. Sou privilegiada porque tenho uma rede de apoio ao meu lado e é muito difícil chegar em mim as carinhas de: vc tem qualquer coisa por sua culpa. Eu costumo ouvir ao contrário: minha tia costuma me dizer é que sou forte, sorridente, não tenho cara de doente, energia de doente.E fala isso respeitando e cuidando de qualquer dor que eu possa ter,ela só olha profundamente pra dentro de mim e aponta a mulher forte que ela percebe, aponta com orgulho. Óbvio que o motivo disso, é que o nome dessa doença pode ser endometriose, mas o meu é gota serena. E essa gota serena aqui está sempre disposta a sambar na cara daqueles e daquelas que diminuam as minhas amigas.Que vem tirar onda conosco e com a nossa militância! Mas não tem essa não, gota serena, lembra?

 

*Mundiça são as pessoas que diminuem a dor da portadora da endometriose.

** E todo mundo cansa de remédio, ficar internado em hospital, mesmo que o atendimento do hospital deseja ótimo. Uma portadora de endometriose não precisa de uma pessoa idiota ao seu lado, mas de alguém porreta, uma família porreta que dê força e mande a culpa pro espaço. Sério, idiotas não são bem-vindxs, mesma que esta não seja uma atitude nada budista.

*** Se você foi ou é um idiota da endometriose, vai fazer terapia!

Deixe um comentário »

8 preocupações mundanas

As 8 preocupações mundanas são:

1. Gostar de ser elogiado
2. Não gostar de ser criticado
3. Gostar de ser feliz
4. Não gostar de ser infeliz
5. Gostar de ganhar
6. Não gostar de perder
7. Desejar ser famoso
8. Não gostar de ser ignorado

Acho que é batata se sentir tocado por esses sentimentos. Quem consegue não se abalar com uma crítica ou quando alguém ignora a gente? É difícil pra caramba. Lógico que é totalmente possível ter uma natureza livre, não se apegar ao sofrimento, pois se forma é vazio e vazio é forma, o sofrimento não existe. As coisas são, não são e são.

Esse ano está sendo meio punk em alguns aspectos, cruzando e descruzando com pessoas que parecem querer tirar onda comigo, machucando, cutucando, como se tivessem enfiando uma faca e tendo prazer nisso. No meio de um rebuliço desses, uma situação difícil pra caramba, veio na minha mente a segurança de que fulana era minha mestre, que eu estava era recebendo uma oportunidade maravilhosa de aprender coisas novas. Pois é, tem uma prece budista chamada: oito versos que transformam a mente. Toda vez que eu leio acho que faz muito sentido, a gente gasta energia demais tentando defender uma identidade que criamos e tentando assegurar que seremos elogiados, felizes, ganharemos sempre e seremos reconhecidos por isso. Segue dois trechos da prece:

5. Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa,
Ou a insultarem e caluniarem,
Vou aprender a aceitar a derrota,
E a eles oferecer a vitória.

6. Quando alguém a quem ajudei com grande esperança
Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo,
Vou aprender a ver essa outra pessoa
Como um excelente guia espiritual.

Eu não acho que oferecer a vitória e aceitar que aquela pessoa “absurda” é seu mestre é agir com passividade, mas que é preciso largar as coisas, pois não dá pra ficar alimentando certos sentimentos, é só largar e mudar a perspectiva. Você muda o olhar e parece que tudo muda, mas na verdade não mudou foi nada, tudo estava sempre ali, a gente que sente que muda.

 

Deixe um comentário »

O quanto nos apegamos as coisas

Apego, apego e apego, parece que nossa vida é só apego. Nos apegamos a tudo, vivemos em função do desejo de alcançar a felicidade,  todos os nossos atos são  desejos de felicidade.  Aquela pessoa, por mais absurda que seja, deseja ser feliz, sente apego por uma felicidade que não existe. Nossa realidade é uma criação, não existe, não existe nem um eu e nem um meu, ninguém é de determinada forma, pois tudo é mutável, tudo é vazio. Nos apegamos a ideia que construímos de nós mesmos, dizemos que somos assim e não tem mais jeito. Ô pobreza!

Criamos vários mecanismos de segurança e fugimos, fugimos, loucamente, porque ter lucidez é difícil, significa não ser fruto dos impulsos. Somos levados pelas historinhas que criamos em nossa mente, embarcamos nelas. Ahh não vou conseguir viver isso, terminar aquilo, sou fraco, sou forte, sou, sou… A gente se apega a ideia de felicidade e de sofrimento. Solidificamos as coisas, não percebemos a impermanência do que vivemos.

Nos apegamos também ao que desejamos do outro, mas não gostamos do outro, gostamos daquilo que o outro nos proporciona. E o sofrimento? Parece que nunca vai embora, mas ele vai, porque nada permanece pra sempre, a roda da vida gira e tudo que veio vai. Nos apegar pra que? A gente se apega a ideias loucas que criamos. Eu, por exemplo, sempre tive extrema segurança que nunca poderia, ou posso, ter câncer na vida, afinal, na minha família ninguém nunca teve. Mas que segurança existe na vivência do outro? Que garantia temos? Eu não tenho nenhuma.

Sempre penso em Foucault e o cuidado de si, acho que faz total sentido. Claro que como ele mesmo diz, não dá pra gente se apegar a ideia de liberdade, que se a gente praticar o cuidado de si seremos livres, porque liberdade é o que? Mas ao mesmo tempo é sim, é um tipo de liberdade olhar para nós mesmos e ter compaixão nesse olhar.

Sabe, você já parou pra pensar que daqui há alguns anos todos que estamos aqui agora estaremos mortos, inclusive você? Então nos apegarmos pra que? Dinheiro, casa, comida, roupas, namorado, é tudo ilusão. Você olha prx outrx e diz: é o amor da minha vida! Mas não é porcaria nenhuma. A vida é sua, o outro pode estar na sua vida no futuro ou não, não tem garantia nenhuma, o ideal é olhar pra quem está conosco e desejar que ela seja feliz mesmo sem a gente, que se liberte das causas do sofrimento. Ela pode estar ao nosso lado, mas não precisa, sabe, não precisamos de nada.

É tudo experiência, sempre é uma experiência. Mas isso não quer dizer que não podemos viver essas experiências. Essa semana mesmo dividi o tapete de meditação, foi tão bom meditar junto, compartilhar e sorrir. Meditar sozinha é bom, mas meditar em conjunto é bom também. Fiquei pensando nessa nova experiência de compartilhar a energia do outro, mas estar com a minha mente vivendo o movimento de meus próprios pensamentos, se conectar e se desconectar do outro, acho que isso é um tipo de meditação. Não nos apegarmos as experiências e aos outros não significa que não podemos viver em conjunto com o outro, mas que não vamos embarcar nas criações de nossa mente, que estamos lúcidos, não vamos nos abalar com as mudanças e interferências. Vamos é viver o caminho do meio.

 

Deixe um comentário »

Coisas que uma sociedade racista faz por você

Djamila Ribeiro no I Encontro Feminista de São Paulo.

Você, um belo dia, está na faculdade e vem uma pessoa que mal te conhece e te diz: “ai nossa, se eu fosse você, com essa beleza, não estava aqui não. Tinha arrumado um gringo rico, você sabe que eles adoram mulheres negras”. Poxa vida, me descobriram! Mas, é claro que é isso! Sou modelo manequim frustrada que tentou ser garota do tempo e mulata do Sargenteli e não conseguiu. Daí, tive a brilhante de ideia de perseguir um marido rico para me dar bem. Aí, pensei: onde posso arrumar um gringo rico? No curso de Filosofia! Fiz quatro anos de graduação, agora estou no mestrado, mas ainda não consegui. Mas, estou na luta!

Você vai levar sua filha pra praticar uma atividade esportiva. Já não fala muito com as pessoas porque tem preguiça delas. Abre um livro da Beauvoir pra ler, coloca sua cara no modo “não perturbe”, mas mesmo assim, do nada, vem uma alma que mal te conhece, mexer na capa do seu livro e te dizer: “estava te olhando de longe e não acreditei; vim ver mesmo se você estava lendo Beauvoir!” Mas é claro, que ela tinha que ficar surpresa, eu estudo Beauvoir no mestrado, já apresentei trabalhos sobre a obra dela, mas bem feito pra mim, que mandou não ter cara de quem estuda. E ainda por cima, estava lendo um livro em inglês, como assim, uma negra bilíngue? É o fim dos tempos!

De novo, você leva sua filha para praticar esporte. Enquanto está lá, ouve música porque tem preguiça das pessoas que lá estão. Aí, uma senhora, que não te conhece, se aproxima de você, faz você para de ouvir a linda da Nina Simone e te diz: “olha, estou procurando alguém pra limpar a minha casa, se você conhecer alguém, avisa o tal professor”. O professor, em questão, também era negro e com certeza a gente devia ser da mesma família. Lógico, a Thulane só está lá porque ele deu uma bolsa pra ela. Eu estava lá, no mesmo espaço que ela, esperando minha filha, (que pasmem, é negra!), mas eu deveria estar perdida por lá ou deveria ser consultora de recursos humanos domésticos para dondocas sem noção.

Você está em algum espaço que as pessoas julgam que não é pra você. As pessoas te olham com aquela cara de quem deixou esse povo entrar ou te olham como se você fosse algum experimento científico que deu errado. Não satisfeitas, elas vem te abordar e fazem um interrogatório: “onde você mora?” “Trabalha com o que?” “seu pai fazia o que?” “onde sua filha estuda?” Pessoas que nunca te viram ou que mal te conhecem. É um excelente modo de se fazer amizade, na verdade, é super comum você sair fazendo perguntas invasivas pra pessoas que você nunca viu. Inclusive, é um método recomendado pelo guia de etiqueta da Glória Kalil.

Você está conversando com algumas pessoas, quando de repente, uma para, te olha com surpresa e diz: “nossa, você é inteligente, fala bem!” Puxa, que pessoa bacana, ela ficou surpresa por eu saber falar! Ou quando não muito, quer ser parabenizada por não se considerar racista: “sabe, eu não discrimino ninguém, inclusive deixo meus filhos terem amizade com pessoas como você!” Olha,que pessoa maravilhosa!! Da próxima vez vou pegar o nome completo dela e mandar fazer uma placa em homenagem a ela!

Depois, ainda tem gente, que vem dizer que a gente só fala em racismo e fica postando o vídeo do Morgan Freeman dizendo que o melhor modo de acabar com o racismo é não falar sobre. Claro, porque a gente fala de racismo porque gosta. A sociedade é tão maravilhosa, todas as pessoas são tratadas igualmente e com respeito, que daí, a gente seu auto oprime. Na verdade, vou contar um segredo: @s pret@s, as bichas, as sapatas, as travas e trans, se reúnem mensalmente e fazem uma cúpula noturna. A cada reunião, a gente decide quem vai ser o grupo oprimido da vez. Aí, a gente se auto flagela também que é pra dar mais veracidade e emoção. Ironias, a parte, como tem pessoas que não tem a mínima noção do que está fazendo no mundo! A impressão que dá é que elas vieram de um planeta distante e resolveram parar a nave espacial na Terra, olharam para o Brasil, quiseram ficar, mas mantém a cabeça no outro planeta. Não tem a mínima noção dos problemas sociais do país em que vive, e pior, culpa o outro, quando esse outro se impõe contra isso. Impressionante. Ou tem aquelas pessoas que dizem que só o pensamento positivo cura e que devemos parar de falar no mal que nos aflige. E ficam numa bolha de otimismo que dá medo, vai que pega. Ser positiva diante da vida é importante, não nego, mas achar que tudo se resolve com isso, beira à loucura. Será que o Amarildo não pensou positivo o suficiente? Ah, me poupe. Algumas pessoas, em vez de questionarem porque estão incomodadas com sua presença, querem procuram motivos para legitimar o incômodo delas te incomodando. Praticamente um trava língua. Já naturalizaram tanto que negras não devem estar em certos espaços, que não se questionam sobre isso, ao contrário, acham que você está invadindo o espaço delas.
Por isso, que digo: não sou obrigada a conviver com esse tipo de gente por vontade própria. Já basta ter que enfrentar o racismo institucional e pessoas que não dá pra evitar. Justamente por isso, que não dou a mínima para algumas pessoas, que me afasto ou ignoro mesmo. Não faço a mínima questão. Não sou obrigada a conviver com pessoas que ficam muito surpresas por me acharem inteligente. E ouvir isso de pessoas que acham que o Che Guevara foi um assassino frio e sanguinário e acreditam no golpe comunista de 2014. Ouvir isso de pessoas que colocam @ filh@ numa escola que usa conceitos de Piaget e Vigotsky e fiam perturbando a professora perguntando porque não ensinam matemática de modo “convencional”. Daí, quando você fala brevemente sobre os dois autores e fala sobre o construtivismo, aí sim elas tem certeza que você é a criação do vírus ébola. Eu quero estar perto de pessoas que tratam as outras como pessoas. Uma frase tão óbvia, mas ao mesmo tempo tão distante. Depois não adianta me chamar de antipática, eu é que não vou morrer de úlcera e nem cansar minha beleza tendo que conversar com pessoas assim. Como diz, meu lindo amigo, Didz de Lautaro, já basta o mundo pra nos oprimir, não precisamos de pessoas assim no nosso convívio. Tomei essa resolução pra minha vida; me faz muito bem. Sem culpas, sem medo de ser rotulada de anti social. E, falando no lindo do Didz, adorei uma frase que aprendemos num curso que fizemos juntos: “não basta resistir, tem que vicejar!” E continuarei vicejando negra e linda e jogando minhas tranças para essas pessoas sem noção.

* Texto de Djamila Ribeiro – Mestranda no programa de Pós-Graduação em Filosofia na Unifesp.  Djamila é uma mulher inteligente pra caramba, filósofa transgressora,  absurdamente, linda e mãe de uma menina ultra graciosa. 

Djamila Ribeiro

20 comentários »